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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O Museu do Fado

 


O Museu do Fado está situado em Alfama num antigo reservatório  de água e estação elevatória.

É dos poucos museus de Lisboa, que nunca tinha visitado.

Ao saber que uma obra do Mestre Louro de Almeida, cujo centenário de nascimento se celebrou no passado mês de agosto, estava exposto no Museu do Fado, fiquei curiosa em ir vê-la, pois o Mestre foi Professor e Diretor do Sector de Belas Artes da antiga Academia de Música e Belas Artes da Madeira.




Este quadro foi censurado pela PIDE.


Paula Rego. Fado. 1995


José Malhoa. O Fado.1910


Constantino Fernandes. O Marinheiro. 1913



A exposição temporária no piso -1 era sobre Carlos Paredes.


Carlos Paredes e José Afonso

O Museu do Fado é um tributo ao Fado, aos fadistas e à guitarra portuguesa. Ficamos a conhecer a história do fado desde a sua génese até à atualidade com exposição de diversos instrumentos musicais, com atenção especial à origem e evolução da guitarra portuguesa, gravuras e fotografias dos artistas. A apresentação é agradável e moderna. Acho que falta um manequim com uma fadista vestida a rigor.

Como costumamos fazer, sempre que vamos à Baixa deixamos o carro nos Restauradores e apanhamos um táxi e depois, se a distância não é grande, regressamos a pé. Assim fizemos. Pelo caminho fomos vendo os muitos prédios renovados, passámos pelo Chafariz do Rei, onde o ano passado fui tomar chá com a minha amiga Margarida, entrámos na bela igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, até chegarmos ao nosso destino: Os Restauradores.




Fado Singers in the 21st Century. Fado Revisited in Several Biographies

Recordando Amália

Visita à Casa- Museu Amália Rodrigues

domingo, 4 de outubro de 2020

Obra inédita de Paula Rego



Só recebi a semana passada o semanário Expresso com uma edição comemorativa por ser o número 2500. Foi uma surpresa ver a capa da revista com a obra inédita de Paula Rego La Mano Muerta. Gostei de saber a história por detrás desta gravura, explicada pelo seu filho, Nick Willing:


"Quando disse à Paula Rego que o vosso tema era ‘Liberdade de Expressão’, ela imediatamente sugeriu ‘La Mano Muerta’. Isto pode não ser exatamente o que estariam à espera, mas tem uma história forte que ela considera apropriada. Em 1962, Paula fez uma gravura, no seu estúdio em Londres, contra os regimes fascistas de Franco e de Salazar. Depois, trouxe a gravura para Portugal para imprimir, mas foi avisada que o SNI a estava a vigiar por causa de outras pinturas e desenhos anti-Salazar que ela tentara expor. Quando soube que poderiam ir ao estúdio na Ericeira, ela escondeu a chapa na casa dos pais, no Estoril. Tanto quanto ela se lembra, nunca foram feitas provas dessa chapa, tendo esta desaparecido. Há algumas semanas, estive no Estoril a arrumar algum material e deparei-me com um velho embrulho perdido na garagem. Era uma chapa de gravura antiga (imagem à direita), enferrujada e cheia de marcas. Trouxe-a de volta para o Reino Unido e pedi a Mike Taylor, da Pauper’s Press, para a restaurar. O resultado é a gravura ‘La Mano Muerta’ — ‘A Mão Morta do Fascismo’ (imagem em cima). Nunca foi exposta... Que eu saiba, nunca foi vista até agora. O mundo mudou. Em vez de a esconder com medo da prisão ou da tortura, Paula quer agora mostrá-la como símbolo de desafio contra o fascismo.”

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

As Coisas que os Homens me Explicam



O livro que lemos este mês no Clube de Leitura foi este, em inglês, portanto a versão original.
A sua escolha deveu-se ao facto de estar a ter muito sucesso no ambiente universitário de Londres.  Apesar de não ser muito dada à chamada "literatura feminista", pus mãos à obra, comprei e li o pequeno livro de apenas 124 páginas, até para  poder contribuir para o debate  na reunião do Clube de Leitura, que se realiza hoje.
Numa pesquisa rápida à capa do livro em diversas versões na Europa, reparei  que só a portuguesa e a espanhola (a brasileira é igual) são ilustradas. Vi um filme há muitos anos, que me suscitou interesse em rever depois de observar a capa do livro em português, mas não consigo recordar o seu nome. Tratava-se de um casal, que vivia aparentemente feliz, até o marido resolver deixar a mulher e a casa para ir viver com outra. Os primeiros tempos foram dificeis para a protagonista da história, que tinha uma vida baseada nas rotinas do seu casamento. No entanto, "libertou-se", incluindo do preconceito de "mulher abandonada" e, quando o marido tentou voltar, ela  disse não. O filme termina com a protagonista a dar um grande salto de uma prancha  alta, como que a voar. Estava em Brighton e decorria o verão de 1978...
Na capa do livro, o homem é quem dá o salto e a mulher fica a observar. Achei interessante a moda dos anos 50 e 60, exatamente quando se intensificaram os movimentos de emancipação das mulheres.
Na capa em espanhol, o homem  "um bem engomadinho ", como costumo chamar, que podia ser da época da capa anterior, tem a boca amordaçada. Realmente muitos dos males da nossa sociedade têm a ver com os disparates que se dizem. E se não há nada interessante a dizer, mais vale estar calado..

As ilustrações dos diferentes capítulos são de Ana Teresa Fernándes, uma pintora nascida no México, em 1980 e dizem muito sobre o tema, tanto como as palavras de Rebecca Solnit.


                                                                                                                                                                    








                 
                     












                                                     
                     
                                         
Outro dos motivos que me levou a ler o livro (o mês passado tinha afirmado que não ia participar) foi uma situação que se passou comigo na recente viagem a Bruxelas. Estava muito bem sentada num restaurante voltada para a janela da rua em frente ao meu marido, que estava de costas. para a dita janela







Depois de apreciarmos os famosos "moules" e pagarmos a conta fomos à casa de banho. Quando foi a vez do meu marido, fiquei obviamente sozinha e comecei a reparar num homem na rua, colado ao vidro da janela, que me fazia gestos obscenos. Desviei o olhar, mirando à esquerda e à direita, mas não havia mais ninguém daquele lado do restaurante.

Ao sair com o meu marido, que ainda me ajudou a vestir o casaco, pensei que o homem tinha desaparecido, mas não. Colocou-se no meu ângulo de visão e desta vez fazia gestos para eu ir ter com ele.

O homem tinha um ar perfeitamente normal e podia ser qualquer um que encontramos diariamente na rua ou numa repartição.

Eu estava obviamente indignada com o atrevimento e a "descarga" caiu sobre o meu marido, que me tinha deixado sozinha e não se tinha apercebido de nada. Um comportamento muito pouco "feminista".

O livro é um conjunto de sete textos e o primeiro dá o mote para o titulo da obra: As Coisas que os homens me Explicam. A "desigualde de género" (não gosto do nome, mas é assim apresentado) é analisada através de manifestações de violência contra as mulheres. A autora começa por contar um episódio inofensivo em que numa festa em Aspen, em 2003, um homem lhe explica um livro ( River of Shadows: Eadweard Muybridge and the Technological Wild West) que não leu e que foi ela que o escrevera. Este episódio deu origem a um texto no blogue TomDispatch e teve uma grande repercussão. Surgiu assim a palavra mansplain para a situação em que os homens explicam às mulheres coisas que elas sabem e que eles não sabem, chegando a ser considerada pelo New York Times uma das palavras do ano (2010). Este texto, foi escrito numa assentada, segundo a autora, e nota-se.

O segundo texto ( prefiro chamar assim, apesar da autora se referir a "ensaios") A Guerra Mais Longa é sobre a violência, abusos sexuais, violações e até morte sofridas pelas mulheres.

O terceiro, O Mundo Colide Numa Suite de Luxo: Alguns Pensamentos sobre o FMI, Injustiça Global e Um Estranho no Comboio é essencialmente sobre o caso Dominique Strauss-Kahn.

No quarto texto Em Louvor da Ameaça: O que a Igualdade no Casamento Realmente Significa opina que o casamento entre pessoas do mesmo sexo pressupõe igualdade no companheirismo, constituindo uma ameaça para os casamentos tradicionais, onde a mulher é subserviente.

Em Avó Aranha examina as leis do casamento inglês, onde as mulheres são, na sua opinião, propriedade do marido.

No sexto texto estava à espera de mais, pois é acerca de Virginia Woolf: A escuridão em Woolf. Abraçando o Inexplicável. Diz que Virginia Wolf está presente em cinco dos seus livros e é uma escritora que a marcou. Refere-se também à activista americana Susan Sontag

A Caixa de Pandora e o Trabalho Voluntário da Força Policial, o último texto, é um apelas às armas nesta guerra dos sexos, onde não há possibilidade de retorno ao passado. Afirma com orgulho que dois rapazes homossexuais foram eleitos o casal mais giro de uma escola de Nova Iorque...

Francamente, não gostei do livro. Prefiro recordar quadros da Paula Rego acerca de abusos e violência sobre as mulheres. 


Paula Rego



Série "mulher-cão" de Paula Rego (1994) marca o início de um novo ciclo de mulheres fortemente simbólicas, representadas sozinhas, mas aparentemente escravizadas.



Série sobre o Aborto (1997-1999), crítica ao referendo que em Portugal justificou a continuação da criminalização do aborto.