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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Museu Nacional da Música



Quando soube que o novo Museu da Música ia abrir no Palácio de Mafra imaginei um espaço aberto, onde os visitantes pudessem ter acesso aos instrumentos musicais e aos seus sons (não para mexerem e tocarem, mas através de videos ou multimédia) como por exemplo o Museu de Instrumentos Musicais, que visitámos em Berlim.


Berlim 2012

A funcionar durante três décadas na estação de metro do Alto dos Moinhos, em Lisboa, o Museu Nacional da Música merecia melhores e mais amplas instalações e fiquei muito satisfeita por saber que, em 22 de novembro de 2025, Dia de Santa Cecília, reabriu  no Palácio de Mafra.
Hoje, apesar do dia estar pouco convidativo, fui com o meu marido visitá-lo. O elevador não estava disponível e subimos ao segundo piso (que mais parece um 4º andar dado a quantidade de escadas...)

À entrada sorri comigo mesma ao deparar, como peças de museu, um antigo conjunto de aparelhos elétricos, através dos quais ouvia rádio e música, há anos. E podia-se escolher algumas músicas para ouvir num programa género spotify. Entretanto ouvia-se ao fundo música... era cante alentejano com excelente qualidade de som. Achei interessante e pensei que seria um ensaio para algum concerto. Quando cheguei  a essa sala vi tratar-se de uma gravação e havia um casal sentado no chão, apreciando.


Todavia, a surpresa profundamente desagradável aconteceu de seguida. Nas sucessivas salas do museu, a média luz, que no palácio configuram um longo corredor, dispõem-se ao meio enormes caixas de vidro, que são os expositores. No seu interior mostram-se, ora amontoados ora pendurados, os múltiplos instrumentos musicais. A sua organização assemelha-se mais a um armazém ou depósito de produtos excedentários. Portanto, na exposição não se valorizaram as peças, quer pela beleza, quer pela especificidade ou excentricidade, nem sequer pela antiguidade. Aliás, a cronologia sobressai pela  ausência.


De facto, as legendas sucintas escritas a branco sobre fundo preto referem época, local de origem, identificam construtores; contudo, não esclarecem a sua evolução. E nada explicam acerca da sua construção e, à exceção, de um mostruário para o qual um simpático funcionário nos forneceu uns auscultadores, o som é mudo. Choca, pois com as técnicas multimédias existentes... seria interessante para o visitante ouvir como soavam, nem que fosse o timbre, a maioria dos instrumentos expostos.       


Tapeçaria séc XVI. Fainça Ratinho. Retrato de Luís de Freitas Branco meio escondido

O que tem em comum fainça ratinho com quadros, painéis de azulejo, instrumentos musicais, uma tapeçaria do século XVI exibidos todos misturados?


E o piano que Liszt ofereceu a D. Maria II, quando passou por Portugal com um instrumento angolano, (madimba) na mesma vitrine?

Ao ler o catálogo do museu, que chamam Caderno de Viagem, percebi : "...procurámos  também diluir em plena convivência democrática o capital simbólico, canónico e profundamente fétichizado, de certos instrumentos em detrimento de outros: por essa razão, aqueles que se encontram classificados como tesouros nacionais não ganham mais protagonismo expositivo do que quaisquer outros objetos da coleção. Um cacofone pode ser tão ou mais revelador do que um stradivarius.". Ideia estapafúrdia...


Por isso o stradivarius de D. Luís quase que não se nota. Tivemos de andar à procura...




O piano e o violoncelo de D. Luís no anterior espaço





E o retrato de Luisa Todi, metade à sombra, feito por Vigée-Le-Brun, reconhecida como a pintora retratista mais famosa do séc XVIII? Que eu saiba só o MNAA tem outra obra desta pintora...

Muitos textos: 



... e pouco conteúdo. Por tudo isto foi uma desilusão esta visita. 

Finalmente, um museu é memória, não exististindo para expôr conceitos ou passar mensagens mais ou menos subliminares. As principais funções de um museu são guardar, mostrar e explicar da maneira mais clara possível o respetivo espólio. O novo museu da música, ao contrário do seu pequeno, mal situado e, durante anos, menosprezado antecessor, não cumpre de maneira minimamente satisfatória aquelas funções. E na sua organização privilegiou-se o facilitismo de amontoar objectos, não aproveitando os espaços amplos do Palácio de Mafra para expôr instrumentos e celebrar a música, desprezando ainda qualquer objetivo didático.   

Neste museu a música não é um espaço de liberdade, mas sim de reclusão. 







terça-feira, 1 de março de 2022

Fotografias em direto...

Todos os dias agradeço a família que tenho e a possibilidade que me dão de poder acompanhar quase em direto acontecimentos importantes nas suas vidas.

Hoje foi o caso de ter assistido a uma pequena parte do último ensaio da Orquestra Académica da Universidade de Coimbra  para o concerto desta noite.




A minha nora a tocar violoncelo


 
Com os filhos e marido a assistir




À distância de 2.772 Km os sogros aplaudem.











segunda-feira, 19 de julho de 2021

Oferta de Franz Liszt a D. Maria II







Na recente visita ao Palácio da Ajuda para ver a exposição sobre D. Maria II, não me recordo de ver referência ao grande interesse da família pela música.

Junto ao retrato de João Domingos Bomtempo de 1814 menciona-se que este pianista e compositor fundou em Lisboa a Sociedade Filarmónica e que foi nomeado mestre de música da rainha D. Maria II em 1833, cargo que ocupou até 1842 e, em 1835, criou o Conservatório de Música, sendo o seu primeiro diretor.

Apetecia-me saber mais, até pela grande tradição musical da Dinastia de Bragança e por isso hoje fui ao Museu da Música ver o piano que Liszt trouxe consigo em 1845, quando passou por Portugal e, depois, ofereceu a D. Maria II.
Piano Boisselot & Fils, Marselha, 1844



D. Maria II doou-o ao professor de música dos Infantes, Manuel Inocêncio dos Santos.








Gostei muito desta visita ao museu, que não visitava há muitos anos. A próxima vez será concerteza em Mafra, para onde se mudará em  três anos.
E como não podia deixar de ser também vi o violoncelo Stradivarius, que pertenceu ao Rei D. Luís.
 






E já agora que estamos a falar dos Bragança, a caixa de contrabaixo em madeira pintada, que pertenceu ao Rei D. Carlos.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Rossini e a boa mesa

Gioachino Antonio Rossini 1792-1868 

O musicólogo e antigo diretor do Teatro Nacional de São Carlos, Paolo Pinamonti, foi o convidado da primeira tertúlia organizada pelo jornal Público e o restaurante Eleven, em 2011 e os participantes  descobriram que a ópera e a cozinha têm mais em comum do que se imagina.

"A ópera não é a soma aritmética dos seus elementos", disse Pinamonti. "É mais do que essa soma." É exatamente como a cozinha. "Se tentarmos fazer um tornedó limitando-nos a juntar os ingredientes, não resulta." Para quem ouve, ou para quem come, a emoção vem de algo inexplicável. Rossini sabia disso - no teatro e à mesa.

Tornedó à Rossini

Rossini nunca foi um cozinheiro, nunca inventou nada, mas há muitas anedotas e pequenas histórias, que o ligam à cozinha e que ele próprio sempre alimentou, explicou Pinamonti. "Ele era muito amigo de Casimir Moisson, jovem chefe do restaurante parisiense Maison Dorée, e estava sempre a fazer-lhe sugestões e a interferir com o trabalho de Moisson."

O jovem chefe não queria ser desagradável para com o grande maestro, mas um dia terá mostrado alguma impaciência, dizendo que tinha que voltar para a cozinha, ao que Rossini terá respondido: "Et alors, tournez le dos!" (Então, vire as costas!). O Tornedó à Rossini, diz-se, teria nascido aí, desse "tournez le dos".


Stracchino

Pinamonti revelou ainda que Rossini era um entusiasta de stracchino, um queijo de leite de vaca, amanteigado, típico da Lombardia e que escrevia ao pai a pedir que lhe mandasse stracchino de Itália para França.





Ária do risotto

Em 1813, quando a ópera Tancredo estreou no La Fenice, em Veneza (do qual Pinamonti foi diretor artístico entre 1997 e 2000), a cantora Adelaide Malanotte ter-se-á queixado de uma ária, que lhe parecia demasiado longa. "Havia a tradição de se comer risotto", contou Pinamonti, "que é um prato que não pode ficar no fogão, tem que ser cozido no tempo certo. Por isso só quando os clientes chegavam ao restaurante é que o chefe perguntava "Vado con il riso?" [Avanço com o arroz?]. Rossini escrevia muito rapidamente e conta-se que a nova ária fora escrita no restaurante no tempo que o arroz demorou a cozer".

Mas seria profundamente injusto reduzir Rossini a um apreciador de boa comida e ao homem retratado em anedotas gastronómicas, embora, como diz Pinamonti, ele quisesse claramente "contrastar com a imagem do artista romântico, magro e desinteressado das coisas mundanas". Rossini era, acima de tudo, um grande compositor de ópera.



D. Luís e Rossini

Num almoço oferecido por D. Luis, onde também estava presente Castelo Melhor,  foi servido Tornedó à Rossini e consta que D. Luís terá dito: "Não vos vou maçar com a história do Rossini e do tournedos, porque já conhecem certamente, mas vou vos contar outra ... quando estive em Paris, entre outras coisas, apareci de surpresa em casa do Rossini. Aqui para nós, que ninguém nos ouve - e ri-se mais enquanto mete na boca mais um pouco de pão, agora com molho do tornedó- eu já tinha tudo combinado com o Rossini, mas quis encenar a aparição de mais um músico naquela casa, onde também estava, imaginem, o grande Verdi. Toquei violino, e cantámos todos juntos. Diverti-me imenso e só no fim da soirée é que todos os presentes, exceto o Rossini, que já sabia, ficaram a saber que eu era o rei de Portugal. Ahahah! (Xavier, 37)

Na fotografia, D. Luís (1838-1889) com o seu violoncelo stradivarius 'Chevillard-Rei de Portugal', classificado como Tesouro Nacional, uma das ”jóias da coroa” do acervo do Museu Nacional da Música. É o único instrumento em Portugal com a assinatura do construtor António Stradivari (1644-1737). O anterior proprietário foi o violoncelista belga Pierre Chevillard (1811-1877), que manteve o instrumento musical até à sua morte. Pouco tempo depois, o violoncelo passou para as mãos do monarca português, que tinha uma pequena coleção de instrumentos e era violoncelista amador.


Referências:

https://www.publico.pt/2011/05/21/jornal/tornedo-e-opera-num--jantar-inspirado-por-rossini-22044845

Xavier, António. Histórias do Palácio Foz. Aletheia, 2019

Nota: VER a VERSÂO da NET para poder visualizar o vídeo deste post no telemóvel.