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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O Conde de Farrobo, um mecenas



Joaquim Pedro Quintela (1801-1869) era um aristocrata português. Teve uma vida muita intensa, com grande atividade social, nomeadamente no campo das artes. Foi um milionário, herdeiro da grande fortuna do seu pai, o 1º Barão de Quintela, o qual fora diretor e um dos financiadores do Teatro Nacional de S. Carlos, inaugurado em 1793. Em criança, Joaquim Pedro Quintela, divertia-se a assistir aos ensaios das obras, que passavam naquela sala de espetáculos, a mais importante na época. 

A educação musical teve muita importância na formação do 2º Barão de Quintela e 1º Conde de Farrobo. Estudou vários instrumentos e aperfeiçoou-se como intérprete de trompa. Tinha uma cultura vasta, lendo muito. Aliás, na sua biblioteca encontravam-se os grandes autores da época tanto nacionais como estrangeiros. A sua vida caracterizou-se, por um lado, pela riqueza e faustos ligados aos negócios de grande capitalista, como o contrato do tabaco, uma das bases da sua fortuna e, por outro, pelo amor às artes (música e pintura) de que se revelou um grande mecenas. Talvez o mais importante em Portugal, na primeira metade do século XIX.

Domingos Bomtempo
A música guiava os seus passos- foi sócio fundador e financiador da Assembleia Filarmónica, composta por amadores e presidida pelo compositor João Domingos Bomtempo ( este foi o principal impulsionador da fundação do Conservatório Nacional e o músico português mais relevante na mesma época). Além do gosto pelas artes, interessou-se pelo progresso técnico do país e através das suas atividades empresariais investiu na sua modernização, contribuindo para a fundação da primeira companhia de gás (o seu Palácio das Laranjeiras, em Lisboa, terá sido a primeira casa a ter iluminação a gás) e para o desenvolvimento dos caminhos-de-ferro.



Assim, Joaquim Pedro Quintela, 2.º Barão de Quintela , tornou-se uma das maiores figuras lendárias do século XIX em Portugal.


Palácio Quintela (R. do Alecrim)

Em Novembro de1807, com quase seis anos, assistiu à entrada das tropas napoleónicas em Lisboa, um dia depois da Família Real ter embarcado para o Brasil. E viu a casa que habitava na capital ser ocupada pelo General Junot, comandante do exército francês e representante de Napoleão Bonaparte. Junot perguntara qual a casa mais luxuosa de Lisboa, e disseram-lhe ser o Palácio do Barão de Quintela, situada na Rua do Alecrim. Ali instalou-se aquele francês, durante o tempo que as tropas francesas permaneceram em território português, 1807/1808, durante a primeira invasão francesa de Portugal.

Em 1819, casa com Mariana Carlota Lodi com a bênção do rei D. João VI na Capela do seu Palácio das Laranjeiras.

Joaquim Pedro Quintela destacou-se também pelo seu apoio a D. Pedro IV, durante o conflito entre liberais e absolutistas. O Rei recompensou-o com o título de Conde de Farrobo (1833) após a vitória liberal, em reconhecimento pela forma como apoiara, sobretudo financeiramente, a causa liberal na guerra civil contra os absolutistas de D. Miguel.

O seu gosto pelas artes e vida alegre e faustosa, motivou muitas encomendas a artistas da época, não só de pintura, mas também peças musicais para serem tocadas no seu Palácio das Laranjeiras. Quase sempre o Conde de Farrobo participava no elenco, principalmente enquanto músico. Dessa maneira, contribuía para dinamizar criadores e os atores da sua época, muitos dos quais tocavam no Teatro S. Carlos e nos seus palácios. "As festas organizadas pelo riquíssimo conde de Farrobo no seu palácio das Laranjeiras, que incluía um teatro privativo com capacidade para 600 espectadores, tornaram-se memoráveis. Sobressaiu entre todas a que decorreu a 23 de fevereiro de 1843, em honra da rainha, do rei..., na qual o anfitrião gastou 60 contos, uma despesa estapafúrdia" (Lopes. Maria Antónia. D. Fernando II. Um Rei Avesso à Politica. Temas e Debates. 2016. pg 206).

Palácio das Laranjeiras (2012)

Teatro Thalia


O Teatro que o Conde de Farrobo instalou junto do Palácio das Laranjeiras , o Teatro Thalia, inaugurado em 1825 ( destruído, em 9 de setembro de 1862 num incêndio, foi reconstruído e restaurado em 2012, segundo um projeto do Gabinete de Arquitetura de Gonçalo Byrne e Barbas Lopes, o qual manteve as reminiscências do projeto inicial, designadamente a fachada formidável, devidamente restaurada) serviu para o Conde de Farrobo mostrar teatro e ópera aos seus amigos e organizar festas extravagantes.

Palácio Farrobo em Vila Franca Xira (em ruínas)

No Palácio de Vila Franca de Xira, que funcionava como uma espécie de retiro de lazer, o conde produzia vinho na sua propriedade, organizava caçadas e também grandiosas festas, convidando a nobreza e a alta burguesia lisboetas.

Conta-se que até tentou formar uma orquestra com todos os seus empregados obrigados a aprender um instrumento. As marcas que estas festas deixaram, pela sua grandeza e criatividade dão início ao termo farrobodó, nos anos trinta do século XIX. Como se depreende facilmente, a palavra deriva de Farrobo. As suas qualidades artísticas e a sua imensa fortuna celebrizaram as suas festas, que ficaram na memória da vida lisboeta. Todavia, nos últimos anos da sua vida, sofreu um fortíssimo abalo financeiro e grandes e pequenos credores caíram-lhe em cima.

Hoje em dia, o Palácio da sua quinta de Vila Franca de Xira encontra-se completamente em ruinas (ver o ilustrativo blog em ruin arte), o Palácio das Laranjeiras pertence ao Estado Português e no Palácio Quintela, na Rua do Alecrim, 70 agora chamado Palácio Chiado as salas centenárias acolhem, desde 2016, alternativas de restauração e entretenimento.

É uma pena ver um homem, que tanto fez pela cultura portuguesa, ver o seu nome pouco reconhecido e, principalmente, ver o Palácio de Vila Franca de Xira, que possuía um teatro S. Carlos em miniatura, em ruinas (propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca de Xira). Não será que um grande empresário português poderia restaurar e tornar rentável aquele espaço?




A vida e obra de Joaquim Pedro Quintela, 2º conde de Quintela e 1º conde de Farrobo estão relatadas em pelo menos dois livros: O Conde de Farrobo, de Eduardo de Noronha (1945), e O Milionário de Lisboa, de José Norton (2009).






















Referências:






https://www.publico.pt/local/noticia/farrobo-arroubo-roubo-1663261


consultados em 21 fevereiro 2016




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